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Júlio é aquele cara que sempre estava fazendo alguma coisa, de cima para baixo na avenida Brasília, em Medianeira. Ora com quimono, hora com livros nas mãos, hora com alguns papéis do cartório onde trabalhou por muitos anos.

Não lembrou ainda? Mais uma pista... ele tem síndrome de down. Quem sabe agora...

Mas o que quero mesmo com este texto é fazer uma homenagem para essa pessoa que pode ser exemplo não apenas para quem carrega a síndrome, mas para qualquer ser humano. Pelo menos no que tange a inteligência de saber viver. A capacidade de compreender o certo e o errado. A capacidade de amar a saber ser amado.

 

O encontro

Depois de cortar o cabelo, passei no caixa e vi, em cima do balcão, um livro de Aristóteles. Confesso que não leio muitos livros, mas me interessei. Peguei o livro nas mãos e logo Júlio apareceu com um sorriso (como sempre) dizendo que o livro era dele. Começamos a conversar e logo descobri que, aos 40 anos, ele está realizando um sonho de criança: ser ator. Marcamos uma entrevista para conversar um pouco mais sobre o assunto.

A tarde fui até a casa de sua mãe. Júlio estava rodeado de pessoas. Durante a entrevista, primos e outros parentes queriam falar, dar depoimentos sobre Júlio, um exemplo dentro da família. Queriam dar um pitaco que fosse, talvez para que nada fosse esquecido. Júlio estava empolgado e eu também.

O mais insistente e que acabou participando da conversa foi o primo Rafinha. “Ele é o meu companheiro”, começa Rafinha, com quem Julio mora em Curitiba há dois anos. Ele está na capital para estudar teatro, um sonho carregado desde muito antes de eu conhecê-lo. Acaba de passar para o terceiro ano e depois da formatura, no fim de 2009, e com a carteira profissional em mãos, pretende seguir carreira. “Quero fazer novelas”, aponta convicto. “Quando quero uma coisa vou até o fim. Não desisto nunca. Esse era meu sonho desde criança e agora vou continuar minha carreira de ator”, disse na entrevista já se preparando para entrar em casa buscar um pequeno álbum com fotos. No álbum, imagens das peças que encenou, de ensaios e festas com os cerca de 25 amigos “normais” que tem na escola de teatro Lala Schneider. Lá, Júlio estuda a voz, entre outras ações.

 

Preconceito

Pouco antes, havíamos falado sobre preconceito. E... adivinhem? É claro que existe. “Aqui em Medianeira não muito, mas em Curitiba sim. Principalmente na academia de box”, diz Júlio, que não costuma se abalar com a indiferença das pessoas, uma qualidade herdada da mãe Nadir, que sempre foi o braço forte para os tratamentos de Júlio (dona Nadir que trouxe a Apae a Medianeira). Academia de box? (não sei porque fiquei surpreso, já que Júlio é faixa preta em karatê). “Sim, o Júlio faz box, mas vai sair agora por causa do preconceito”, continua Rafinha.

O primo e companheiro do dia-a-dia aproveita a saída rápida de Júlio para contar: “Ele aguenta o preconceito numa boa quando acontece, mas chega em casa e desabafa pra gente”, conta. A gente inclui ainda a tia de Júlio, Vilma, e a prima Nádia.

Júlio retorna. Entende que o preconceito na capital é porque as pessoas não o conhecem direito. Mesmo assim, não perde a autoestima. “Venço desafios. Meu lema é: vem aprender amar comigo”.

A cada reposta dada por Júlio sinto verdades que deixei de sentir em centenas de entrevistas com “pessoas normais”. Fico extasiado.

 

Ping-pong

Peço como ele vê o mundo e responde conciso e objetivo. “Normal”. Isso me instiga a um ping-pong... e começo.

 

Comida preferida?

A Italiana. E frutas... frescas

 

Música?

Sandy e Junior e Ivete Sangalo (que já mandou um beijo para o Júlio durante um show que ele assistiu em Salvador)

 

Livro?

Os que falam de teatro

 

Doce ou salgado?

Salgado

 

Dia ou noite?

Depende o clima

 

Então.. frio ou calor?

Frio

 

Sua mãe Nadir?

Uma pessoa muito boa, amiga e companheira

 

Seu pai José?

Representa só coisa boa. Energia positiva

 

Seus irmãos?

Meus melhores amigos

 

Medianeira?

Uma cidade imensa

 

2009?

Desejo a todos só coisas boas. Quero fazer tudo... no meu limite... vencer desafios

 

Uma pausa para respirar e Rafinha tira as palavras da minha boca. “Nós aprendemos muito com o Júlio”. Tenho apenas que concordar. Naquela altura da entrevista, refletia mais sobre minha própria vida do que outra coisa. Para distrair, peço para tirar algumas fotos.

Prontamente atendido, ali mesmo, onde estávamos, para ser o mais informal possível. Depois de uma sessão voltamos a conversar.

Para finalizar, ele fala das pessoas que o apoiam. “Eu tenho um amigo muito especial... é o Rafinha”.

A sinceridade de Júlio não parava de me emocionar e então decidi que era a hora de encerrar a entrevista, que na verdade foi um chá de forças para 2009 e um estímulo para continuar no caminho certo, mesmo que este seja mais duro, árduo e demorado.

Mesmo assim, ao sair, peço o que ele deseja para as pessoas. “Desejo a todos que sejam muito felizes. Todos são iguais perante Deus. Amo todos do fundo do meu coração”. Não contente, peço a Júlio se ele sabe que é um exemplo de força de vontade e superação. “Sei”... e sorri.

Me despeço de Rafinha, de algumas outras pessoas que estavam por perto e de Júlio. Ele me dá um forte e demorado abraço que só mesmo uma pessoa com síndrome de down poderia dar. Minha primeira entrevista de 2009 me motivado e ciente de que não somos nada se não soubermos ouvir os sentimentos puros que saem do coração.

 

Por Giuliano De Luca

De: Redação Nossa Folha (http://www.nossafolha.com.br/)

Por: Giuliano De Luca ( Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail )

 

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